sexta-feira, 12 de abril de 2013

A música que não se vê




É muito comum os "não músicos" acharem que tem uma relação superficial com a música. Por não saberem cantar ou tocar um instrumento as pessoas acabam achando que não entendem nada de música. Mas a verdade é que nenhuma outra manifestação artística é tão presente na vida do ser humano quanto a música.

A música tem o poder de se transformar em trilha sonora momentos marcantes de nossa vida, a audácia invasiva de se apossar das palavas e torná-la propriedade sua. Quer um exemplo?

"Esse cara sou eu..."

"Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher..."

 É quase impossível ler as palavras acima e não cantarolar a melodia incutidas a elas pelo menos mentalmente.

O que faz as pessoas sentirem essa sensação de "não entenderem de música" não é a inexistência de relacionamento com a música e sim a forma de se relacionar com ela que cria esta sensação. Vivemos em um país riquíssimo culturalmente mas altamente pobre em atribuir valores a esta riqueza. Temos cultura mas não sabemos usá-la. Temos diversidade mas não compreendemos como esta diversidade é tão valiosa. Isso, acaba gerando o empobrecimento musical da "massa". O mercado fonográfico sempre ditou as regras no país no que considero um erro gravíssimo, já que os rumos musicais de um povo deveriam ser ditados pelas bancadas das escolas, das universidades,  pelos conservatórios, ou mesmo pelas expressões dos artistas regionais, aqueles lá do coração da comunidade, que são do povo e comunicam-se com o povo. Então, eu, você e todos os demais, somos levados a ouvirem a exaustão uma música fabricada pra "grudar" na sua cabeça, com um refrão pobre, vazio, sem significado poético ou cultural, e por fim acabamos aceitando isto como música. Então, a música deixa de lado o seu caráter "apreciativo" e ganha força seu aspecto "consumista". Futuramente quero escrever um pouco sobre como penso que poderemos resgatar esses valores outrora perdidos.

Mas, de antemão, o fato é que podemos descobrir muito sobre o mundo que vivemos e sobre nós mesmos quando decidimos que podemos e devemos nos relacionar melhor com a música. Não apenas balbuciar os hits chicletes "checherere" "chochororo", mas sim sentir-se mais próximo do que se canta ou se toca. Há descobertas impressionantes, se, simplesmente como exemplo, resolvermos interpretar uma poesia cantada. 

Mas pode-se ir mais fundo.Recentemente, estive no Rio de Janeiro para assistir a peça teatral "Como vencer na vida sem fazer força"na semana em que estreou no teatro Oi Casagrande, no Leblon. A peça estrelada pelos atores Gregorio Duvivier e Luiz Fernando Guimarães ainda em cartaz, é uma releitura de um musical da Broadway apresentado pela primeira vez no início dos anos 60. Pra quem acompanha o cenário cultural no Brasil é fácil compreender o sucesso prenunciado deste trabalho empreitados pelos consagrados Charles Möeller e Claudio Botelho.

A comédia musical ambientada nos anos sessenta, a época sua contemporânea, traz um roteiro bem divertido, inusitado e cômico. Mas não é sobre a história e o enredo, efeitos especiais ou da performance teatral que quero falar. Por sinal, muito bem preparada, com um elenco de primeira.Mas me chamou a atenção a orquestra da peça regida e "pulsada" como ela mesmo chegou a diz pela regente Zaida Valentim e dirigida pelo maestro Paulo Nogueira. A orquestra formada por um grande nipe de metais executados por muitos jovens músicos. Uma típica big-band executando um repertório jazzístico muito bem elaborado, com arranjos descontraídos, comunicando o tempo inteiro com a apresentação, que com certeza atribuiu uma leveza e uma alta qualidade musical  ao espetáculo. A orquestra, tocando no fosso do teatro, preencheu toda a casa com uma brilhante intensidade sonora e vivacidade incrível.

É muito provável de que poucos pessoas dentre as centenas ou milhares presentes na apresentação de casa cheia conseguiram apreciar em sua essência o repertório musical oferecido, talvez, focando mais na hilariante comédia representada pelos talentosos atores no palco. Compreensível. Mas também é fácil afirmar que jamais sentiríamos o impacto da apresentação se não estivéssemos tão bem servidos com os embalos promovidos pelos excelentes músicos e atores (afinal, trava-se de uma apresentação do gênero musical.).

O que quero dizer, dito isto, é que se resolvermos dar uma chance aos nossos sentidos de absorverem a riqueza que nos rodeia, conseguiremos alcançar outros patamares no conhecimento e em nossa forma de entendermos e vivemos a música a nossa volta. Há uma riqueza musical gigantesca em nosso país, mesmo as de influências dos gringos, capaz de transformar nossas limitadas percepções. Basta darmos uma chance.

Por Bruno Ramos